A cosmologia Enawenê-Nawê concebe o universo como uma estrutura organizada em quatro níveis superpostos. No plano superior encontra-se o Eno, a aldeia celestial perfeita onde habitam os Enore Nawe, espíritos benevolentes e protetores. O plano terrestre é o domínio dos seres humanos, dos dakoti (estrangeiros) e dos atahare-wayate (seres da floresta). Abaixo situa-se o Ehatekoyoare, o mundo subterrâneo sinistro dos Yakairiti, espíritos de fome insaciável. Acima de tudo, há ainda um espaço infinito e indiferenciado que envolve o cosmos.
O equilíbrio entre esses quatro níveis não é dado como natural ou automático: ele precisa ser constantemente mantido por meio do ciclo ritual. Os quatro grandes rituais — Yaokwa, Lerohi, Salumã e Kateoko — constituem o mecanismo pelo qual os Enawenê-Nawê cumprem suas obrigações para com os espíritos de cada plano, oferecendo peixe, sal vegetal, mandioca e mel em troca da preservação dos recursos naturais e da proteção da comunidade.
A falha em realizar os rituais adequadamente acarretaria consequências catastróficas, pois os Yakairiti, não saciados, destruiriam os recursos dos quais dependem os seres humanos, levando ao aniquilamento do povo. Essa responsabilidade cosmológica confere ao ciclo cerimonial uma urgência existencial que permeia todos os aspectos da vida Enawenê-Nawê, desde a organização social e a divisão do trabalho até a relação com o território e os rios.